A grande virada agrícola nacional

A grande virada agrícola nacional

Dizer que é o setor que mais cresce no país e que está em tudo, faz todo o sentido. Comparando a evolução desse setor com o de outros setores da economia brasileira, o agronegócio chama a atenção. Ele surpreendeu e se distanciou do Brasil real. Seu espetacular desenvolvimento chama a atenção, não somente dos brasileiros, mas do mundo desenvolvido. Afinal, o Brasil é um país “em desenvolvimento”, mas quando observado desde a perspectiva agrícola, aparenta ser “desenvolvido”! O desenvolvimento deste setor foi anormal, indicando uma distorção frente ao desenvolvimento dos demais setores da economia brasileira. Seu crescimento tem sido o principal responsável pelos superávits comerciais do Brasil e pelo equilíbrio da sua balança comercial. Foi de quase U$ 900 bilhões o superávit comercial do agronegócio no período 2000/2016, fundamental para o equilíbrio da balança comercial brasileira que tem penado com os déficits de outros setores da economia.

A grande virada do agronegócio brasileiro começou na década de 1970, quando o Brasil se descobriu com potencial para ser grande produtor e fornecedor de soja para o mercado nacional investir na indústria de carnes e nas exportações. Nessa década, a cultura migrou de uma lavoura marginal – concentrada no sul do país – para a liderança do agronegócio nacional (1,5 milhões de toneladas, em 1970 vs. 15 milhões de toneladas, em 1979). A descoberta do potencial da soja levou milhares de produtores do sul – onde a terra era escassa – para o Cerrado do Brasil central, transformando essa região marginalizada, despovoada e desvalorizada no maior centro produtor de soja, milho, algodão e carnes do país. “O desenvolvimento do Cerrado brasileiro deve ser considerado um dos maiores eventos do século XX” (Norman Borlaug, Prêmio Nobel da Paz de 1960).

Mas não foram todos os produtores rurais que se beneficiaram desse desenvolvimento. Em sua maioria, os beneficiários dos milhares de assentamentos da reforma agrária não saíram do lugar. Segundo Eliseu Alves e Daniela Rocha, 27 mil estabelecimentos agrícolas empresariais respondem por mais da metade do Valor Bruto da Produção Agrícola brasileira, que foi de R$ 528 bilhões, em 2016. A grande maioria dos 4,5 milhões de estabelecimentos rurais ainda busca o caminho do sucesso, que poderá nunca chegar, porque lhes faltam as ferramentas necessárias para deslanchar: pouca terra, pouco domínio das tecnologias, falta de assistência técnica, falta de maquinário, e, também, mão de obra familiar escassa, pois os jovens estão preferindo migrar para a cidade, atrás de mais conforto e lazer. Resultado: falta mão de obra no campo, mas sobra na cidade.

O êxodo rural não é novidade brasileira. Isto aconteceu nos EUA entre as décadas de 1940 a 1980, quando mais de 60% dos estabelecimentos rurais desapareceram e está acontecendo na China, assim como em muitos outros países, mundo afora. O campo está migrando das pequenas propriedades tocadas com muito esforço pela mão de obra familiar, para grandes empresas agrícolas altamente especializadas e automatizadas, onde a máquina faz tudo, com menos esforço e menor custo.

Não parece racional o Brasil continuar insistindo no modelo arcaico e falido de reforma agrária que, com raras exceções, não tem trazido melhoria de vida para os “beneficiados”? O campo mudou. Hoje é território das máquinas e das tecnologias nelas embutidas. Simples assim.

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

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