A vitória de Trump e os reflexos para o agronegócio brasileiro

A vitória de Trump e os reflexos para o agronegócio brasileiro

A vitória de Trump e os reflexos para o agronegócio brasileiroContrariando virtualmente todas as projeções dos institutos de pesquisas, Donald Trump venceu a eleição presidencial dos Estados Unidos. A vitória de Trump foi impulsionada por forças nacionalistas semelhantes às que levaram à vitória do Brexit, outro evento que colocou em xeque a capacidade dos institutos de pesquisas. Trump também adotou um discurso populista de rejeição à globalização e a tratados de livre comércio e disse que trará empregos industriais de volta aos Estados Unidos com a punição de empresas que transfiram suas linhas de montagem a outros países.

Ainda há bastante incerteza sobre como será um governo Trump, a partir de 20 de janeiro. O mundo desenvolvido tem vivido um momento de desinflação, juros negativos e baixo crescimento com altíssima liquidez no sistema financeiro, além de uma concentração de renda cada vez maior. A economia global e a própria globalização serão reavaliados: tanto o Brexit quanto Trump receberam os votos contra a globalização dos mercados e a favor da proposta de reequilibrar os mercados pelo viés de maior proteção do mercado interno, ou seja, mais protecionismo, mais inflação e, consequentemente, mais juros com perspectivas de mais empregos em razão da menor competição externa. O câmbio no Brasil deve se manter volátil pelo menos até o início do governo Trump.

O fato é que o rumo do Fed (o Banco Central dos EUA) deve influenciar as decisões do BC brasileiro. Uma pressão no câmbio pode deixar o BC preocupado, mas essa não é a variável central, porque não deve ser forte o suficiente para amargar uma convergência da inflação para a meta. Há preocupação com o efeito do câmbio na inflação para 2017 e 2018. Se o Real se depreciar fortemente, o BC terá mais cautela para cortar juros. A eleição de Trump chacoalha o cenário global das relações políticas e econômicas, mas afeta menos o Brasil. A situação do Brasil melhorou recentemente, mas o cenário econômico não é fácil e ainda teremos de lidar com dificuldades econômicas enormes. Nos mercados de commodities, os metais, que já estavam em alta, voltaram a subir com a eleição de Trump. Há uma melhor expectativa de demanda, tanto na China como nos Estados Unidos. A alta nas commodities metálicas foi de 19% desde o final de setembro. Já os preços das demais commodities tiveram pouca reação.

Apesar da safra mundial recorde de grãos e da elevação global dos estoques, os produtos agrícolas se mantêm estáveis nas últimas semanas, graças à forte demanda. Para as commodities agrícolas, o impacto inicial da vitória de Trump deve ser suplantado, no médio prazo, pela lei da oferta e da procura. Os Estados Unidos precisam consumir produtos agrícolas e o Brasil é um dos poucos a ter a oferta necessária para o crescimento da demanda daquele país e do restante do mundo. A vitória de Trump deve ter pouca influência para o agronegócio brasileiro. Algumas de suas propostas, anunciadas durante a campanha, podem, inclusive, ter reflexos positivos para esse setor da economia nacional. Eventuais barreiras protecionistas levantadas por Trump fariam com que países compradores se voltassem ao Brasil em busca de alimentos e outras commodities. Por exemplo, pode-se abrir o mercado do México para o Brasil. A China, por exemplo, continuará tendo suas necessidades, e se não puder contar com os Estados Unidos, pode importar mais do Brasil.

Em princípio, grãos, especialmente soja, e carnes seriam os produtos mais beneficiados por um aumento do apetite externo pelas commodities brasileiras. Outros produtos, menores em termos de mercado, como suco de laranja e tabaco, também poderiam ser mais demandados. O setor de proteínas brasileiro deve manter o espaço conquistado no mercado global, por causa do reconhecimento mundial do status sanitário do País. Não haverá mudanças significativas neste segmento. Brasil e Estados Unidos estão entre os principais produtores e exportadores mundiais de carnes bovina, de aves e suína. Na avicultura, os Estados Unidos são os maiores produtores e o Brasil é o maior exportador do mundo. O espaço conquistado pelo Brasil recentemente nos países da Ásia continuará sólido. Além disso, a aproximação da Rússia poderá reatar negociações com os Estados Unidos, mas, mesmo assim, o Brasil deve manter o seu espaço para a carne de aves e suínos. Ainda é cedo para se avaliar como o republicado trabalhará em relação à Farm Bill, a política agrícola dos Estados Unidos, que será revisada em 2018.

Algumas das ideias de Trump podem ser positivas para o agronegócio brasileiro. Trump afirma que os Estados Unidos não vão aderir à Parceria Transpacífico (TPP em inglês), que envolve grandes importadores de alimentos, como países asiáticos. A possibilidade de Trump não ratificar a Parceria Transpacífico pode ser uma oportunidade para o Brasil nos segmentos de carnes, grãos e outros produtos agrícolas. Entretanto, Trump não deve afetar de forma significativa o potencial exportador de soja e milho dos Estados Unidos, principais concorrentes do Brasil no mercado internacional. Houve um apoio fundamental de importantes Estados produtores de grãos norte-americanos à eleição do candidato republicano. Trump conquistou boa parte do seu apoio nos Estados do Meio Oeste que ajudaram a eleger Obama em 2008 e 2012, como Lowa, Ohio e Wisconsin, e que desta vez garantiram a vitória de Trump. Para o mercado de soja, o efeito da vitória de Trump tende a ser restrito. Os Estados Unidos são o segundo maior exportador de soja atrás do Brasil. A China não vai parar de consumir soja e os Estados Unidos são um player relevante nesse mercado. Trump ganhou a eleição com apoio massivo dos Estados agrícolas e não deve tomar medidas que prejudicariam o eleitor dele. Quanto ao milho, a expectativa é semelhante, já que os Estados Unidos são o principal exportador da commodity.

Carlos Cogo – Consultor em Agronegócios – www.carloscogo.com.br – Fone: 51 – 3248.1117

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