Argentina resgata a competitividade do agronegócio e volta a concorrer com o Brasil

Argentina resgata a competitividade do agronegócio e volta a concorrer com o Brasil

Argentina resgata a competitividade do agronegócio e volta a concorrer com o BrasilAs medidas do novo governo de Mauricio Macri trouxeram reflexos imediatos para os agricultores e para o agronegócio argentino, cuja pujança sempre foi referência na América Latina. O concorrente do Brasil está de volta. O fim dos pesados impostos sobre as exportações (retenciones), das cotas e licenças para vender ao exterior, do controle de preços e do câmbio trazem reflexos imediatos para o agronegócio argentino. As cotas limitavam as vendas externas e impediam a expansão do setor agrícola. A área de cultivo de grãos tinha atingido 35,6 milhões de hectares em 2011/2012 e, apenas cinco anos mais tarde, nesta safra 2015/2016, caiu para 33,7 milhões de hectares.

Apesar desta redução, a produção conseguiu se sustentar em torno de 100 milhões de toneladas, pois nos últimos ciclos o clima tem colaborado para bons níveis de produtividade. Este freio na produção resultou em níveis mais baixos de receitas em divisas, exacerbadas pela redução dos preços internacionais, em uma rentabilidade para os produtores, em muitos casos, negativa, considerando também que a maior parte do plantio é feito em áreas arrendadas. Mais de 60% do total da área de grãos na Argentina são de arrendamentos que tiveram que reduzir drasticamente seus custos para continuar a produzir. As exportações também caíram significativamente e os mercados foram sendo perdidos.

A maxidesvalorização do peso (de 45%) já elevou, de imediato, a competitividade das exportações de soja, milho, trigo, arroz e outros grãos na Argentina, bem como do leite e carne. Com o fim das retenciones para o trigo e o milho e a redução gradual deste imposto sobre a soja, a expectativa é de forte recuperação da área plantada e da produção de grãos na próxima temporada (2016/2017). O trigo e o milho tinham uma carga de impostos de 23% e 20%, respectivamente. O governo eliminou totalmente essas tarifas. Para a soja, a tributação era de 35% e será reduzida em 5% ao ano (já iniciada em 2015). Ou seja, no plantio deste próximo ano-safra (2016) estará em 25%.

A área de cultivo de grãos da Argentina deverá crescer 10,3% em 2016/2017, para 37,2 milhões de hectares, puxada, principalmente, pela recuperação das superfícies de plantio de trigo e milho. A produção da safra 2016/2017 está projetada em um recorde de 122,7 milhões de toneladas, 16,6% acima da colheita de 2015/2016. A maior parcela desse incremento deverá vir do milho (+ 8,5 milhões de toneladas) e do trigo (+ 5,1), além de expansões esperadas nas colheitas de cevada e girassol.

No médio e longo prazo, a expectativa é de forte retomada do crescimento da área plantada com grãos – tanto no verão quanto no inverno – e, consequentemente, das exportações. Nesta safra 2015/2016, ela deverá colher 105,2 milhões de toneladas de grãos, 6,5% abaixo do recorde de 112,6 milhões de toneladas colhidas na safra anterior (2014/2015).

Para o Brasil, o ressurgimento da Argentina como player global deve trazer impactos mais significativos na soja, trigo, milho e arroz. No segmento de soja, ela é o terceiro maior produtor global e o maior exportador de farelo e óleo de soja, enquanto o Brasil é o maior exportador de soja em grãos – com menor valor agregado. Os mercados visados pelos dois países são os mesmos, mas há espaços para crescimento em ambos. A América do Sul, aliás, responde hoje por 55% da oferta global de soja, contra menos de 30% nos anos 90. A Argentina tem uma área de 20,5 milhões de hectares de soja, a única que cresceu nos últimos anos, embora timidamente. A expansão que havia sido de 48% entre 2002 e 2011, caiu para apenas 2% nas últimas quatro temporadas.

No milho, depois de décadas como o segundo maior exportador mundial, atrás dos Estados Unidos, a participação da Argentina ficou limitada ao quarto lugar, atrás de dois mercados que o país era fornecedor: Brasil e Ucrânia. No complexo de girassol, no qual a Argentina foi líder absoluta em óleo e farelo, ficou relegada ao último lugar, atrás dos países da Região do Mar Negro e da Europa. A área de milho da Argentina (destinada à colheita de grãos) recuou para apenas 3,1 milhões de hectares em 2015/2016, muito abaixo dos 5 milhões de hectares cultivados há cinco anos atrás. Se para o patamar de 4 milhões de hectares em 2016/2017, a produção voltará à casa de 30 milhões de toneladas e colocará o país no posto de terceiro maior exportador global, atrás dos Estados Unidos e do Brasil.

O principal mercado de trigo da Argentina é o Brasil. Mas os argentinos não conseguiam mais fornecer o cereal nas quantidades exigidas pelo mercado brasileiro – que acabou tendo que importar o produto de outros fornecedores, a preços mais elevados. Nesta safra 2015/2016, a Argentina deverá colher 10,3 milhões de toneladas. A indústria local consome 6,5 milhões de toneladas e as exportações devem atingir 6,0 milhões de toneladas. Entretanto, para a safra 2016/2017, a ser plantada no primeiro semestre deste ano, a área deve crescer 41%, para 4,8 milhões de hectares, contra os 3,4 milhões de hectares cultivados em 2015/2016. A produção está estimada em 15,1 milhões de toneladas em 2016/2017, 46% acima das 10,3 milhões de toneladas de 2015/2016. Os excedentes exportáveis devem atingir 8,5 milhões de toneladas em 2016/2017, o maior volume desde 2011/2012.

Carlos Cogo – Sócio-Diretor de Consultoria da
CARLOS COGO CONSULTORIA AGROECONÔMICA
consultoria@carloscogo.com.br
51 3248 1117

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Veja quem comentou

  1. Tarcísio tadeu filippin
    15/04/2016 at 13:21

    Esse novo governo da Argentina e visionário enquanto o nosso e um retardado.esperamos mudanças logo antes da nossa agricultura quebrar…


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