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Silício, o transformador de solos

Nas décadas de 50 e 60 não tinha calcário, nem adubos químicos e nossos solos eram extremamente ácidos e sem fósforo disponível. Na época, havia uma solução para conseguir produzir alimentos nessa condição: roçar e colocar fogo nas capoeiras, liberando silicatos de cálcio e magnésio para neutralizar o alumínio tóxico e liberar fósforo nativo. Inicialmente se cultivava milho ou feijão, depois arroz e por último a mandioca que é resistente a solos ácidos e ao fósforo baixo. Depois deixavam virar capoeira durante dois anos e retornavam a roçar e queimar para liberar o silício ativo do material orgânico.

Agora é hora de entender melhor os efeitos químicos e físico-químicos do silício:

LIBERAÇÃO DE FÓSFORO NATIVO DO SOLO. Nossos solos são considerados os mais pobres do mundo em fósforo disponível e os mais ricos em fósforo indisponível. Menos de 1% do fósforo total do solo está disponível para as plantas. Mais de 99% está preso, formando ligações de complexo de esfera interna com os óxidos de ferro e alumínio do solo. O íon silícico (H4SiO4) é o único íon inorgânico que tem uma afinidade maior com os óxidos de ferro e alumínio que o fósforo, portanto tem a capacidade de liberar o fósforo preso.

AUMENTO DA EFICIÊNCIA DA ADUBAÇÃO FOSFATADA. O fósforo é o macronutriente mais caro da agricultura. Para agravar ainda mais esse custo, é o que tem menor eficiência de utilização. Menos de 20% do fósforo dos fertilizantes químicos tem sido utilizado pelas plantas. A maioria fica preso nos óxidos de ferro e alumínio dos colóides. O íon silícico aplicado antes ou conjuntamente com a adubação fosfatada tem a capacidade de bloquear as cargas de fixação desses e aumentar consideravelmente a eficiência da adubação fosfatada. 

NEUTRALIZAÇÃO DO ALUMÍNIO TÓXICO. O alumínio causa toxidez para as plantas, diminuindo a absorção de nutrientes e reduzindo o sistema radicular. Isso decorre a carga trivalente positiva do íon alumínio, que tem maior afinidade pelas cargas negativas. O íon silícico tem a capacidade de se ligar com o alumínio tóxico, formando complexos e reduzindo a sua carga, dessa forma ele não consegue se ligar às cargas negativas do sistema radicular e deixa de causar toxidez.

AUMENTO DO pH DO SOLO E TEORES DE CÁLCIO E MAGNÉSIO. O silicato de cálcio e magnésio reage com a água do solo e se transforma em íon silícico, nesta reação química captura íons hidrogênios e faz com que aumente o pH do solo.

CORREÇÃO DA ACIDEZ EM SUBSUPERFÍCIE. A solubilidade do silicato de cálcio e magnésio é de 95 mg/l e do calcário é de 14 mg/l, ou seja, o silicato é 6,78 vezes mais solúvel em água que o calcário agrícola. Na prática, a correção do solo ocorrerá mais rapidamente e terá maior potencial de descida dos neutralizantes no perfil do solo em relação ao calcário.

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COMPLEXAÇÃO DE OUTROS METAIS TÓXICOS. Mesmo processo químico da complexação de alumínio ocorre com outros íons potencialmente tóxicos no solo, como o manganês, ferro, cromo e chumbo, reduzindo sua biodisponilidade no solo. Ele forma um tetraedro com os oxigênios e hidroxilas que, carregados negativamente, se ligam aos cátions potencialmente tóxicos e complexam, reduzindo suas cargas.

AUMENTO DA DISPONIBILIDADE DE MOLIBDÊNIO. O molibdênio é essencial para as plantas fixadoras de nitrogênio. Ele se encontra no solo na forma de ânion molibdato (MoO42- ). É fortemente preso pelos óxidos de ferro, alumínio do solo e por grupos Al-OH e Fe-OH das arestas expostas das argilas. O íon silícico tem a capacidade de bloquear essas cargas e liberar o molibdênio preso para as culturas e bactérias.

AUMENTO DA ATIVIDADE MICROBIANA. Sempre que se adiciona silício ao solo ocorre um incremento na atividade microbiana do mesmo. Seja pelo aumento da disponibilidade de fósforo, aumento do pH ou pela redução de elementos tóxicos, todos colaboram com esse incremento microbiológico.

Roberto Luiz Salet
Doutor em Agronomia

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