Perspectivas para o controle de ferrugem asiática da soja em função da menor sensibilidade do fungo aos fungicidas

Perspectivas para o controle de ferrugem asiática da soja em função da menor sensibilidade do fungo aos fungicidas

A ferrugem da soja foi identificada no Brasil há cerca de 16 anos. Desde então a doença vem causando grandes reduções na produtividade de grãos, principalmente em função de sua agressividade. Isso fica claro quando percebemos que uma doença relativamente recente no país já conseguiu transpor as barreiras dos principais grupos químicos para controle de ferrugem, inicialmente com os triazóis (nas safras 2007/08), depois com as estrobilurinas (safras 2013/14) e mais recentemente (safras 2016/17) – conforme divulgado pelo FRAC (Comitê de Ação à Resistência de Fungicidas) – a redução na eficiência de controle do grupo das carboxamidas. O desenvolvimento de resistência ou redução na sensibilidade aos fungicidas ocorre de forma natural, já que os fungos, como qualquer outro organismo vivo, estão em constante processo evolutivo.

No caso das aplicações de fungicidas sítio-específicos (ex.: triazóis, benzimidazóis, estrobilurinas e carboxamidas – que atuam em apenas um local do metabolismo do fungo), se exerce uma pressão seletiva sobre o fungo, fazendo com que o mesmo busque se adaptar, em função de sua necessidade de sobrevivência. Como o cultivo da soja é realizado no Brasil e em outros países da América Latina (Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai), há uma espécie de “ponte verde” interligando todas as regiões produtoras e propiciando a disseminação de esporos em longas distâncias. Somente no Brasil são cerca de 33 milhões de hectares cultivados com soja, o que facilita a multiplicação e estabelecimento de esporos mutantes.

Embora as mutações possam afetar em níveis diferentes de sensibilidade os distintos ingredientes ativos dentro de um mesmo grupo, a resistência ocorre de forma cruzada, ou seja, afeta todos os ingredientes ativos com o mesmo modo de ação (ex. grupo das carboxamidas). Diante desse cenário, há a necessidade de repensarmos o manejo da ferrugem da soja. Os fungicidas são uma excelente ferramenta para controle da doença e sem eles não há como produzir soja de forma economicamente viável. Porém, esses devem fazer parte de um sistema de manejo e não sendo a única opção de controle.

Dentro das boas práticas agrícolas temos a utilização de variedades com resistência, não só à ferrugem, mas a outras doenças importantes, como oídio e doenças de final de ciclo; a realização de rotação de culturas (visando o melhor controle de manchas foliares e mofo branco); a semeadura no início do período recomendado para cultivo (evitando uma maior pressão de doenças em função da disponibilidade de inóculo, como ocorre em plantios de “safrinha”). Devemos ainda, priorizar as aplicações iniciadas de forma preventiva; evitar o uso de somente um fungicida em repetidas aplicações; manter as doses recomendadas pelos fabricantes; utilizar tecnologia de aplicação adequada, a fim de garantir uma boa cobertura da folhagem e, principalmente, adotar a utilização de fungicidas multissítio em conjunto com os fungicidas sítio-específicos. Esses agem em vários locais da célula do fungo, o que dificulta o processo de adaptação da ferrugem aos fungicidas e auxilia na preservação das moléculas sítio-específicas disponíveis no mercado.

Caroline Wesp Guterres é bióloga formada na UPF, com Mestrado e Doutorado em Fitopatologia pela UFRGS e atua como pesquisadora na área de Manejo de Doenças na Cooperativa Central Gaúcha (CCGL TECNOLOGIA), em Cruz Alta, RS.

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