Tecnologias que mais impactaram a produção de soja no Brasil – Parte II

Tecnologias que mais impactaram a produção de soja no Brasil – Parte II

Tecnologias Que Mais Impactaram A Produção De Soja No BrasilConfira a 2ª parte de 3 séries com análises de tecnologias elaborada pelo pesquisador da Embrapa Soja Londrina, o Engº Agrº Amélio Dall’Agnol. Nessa edição saiba mais sobre a utilização do Sistema Plantio Direto (SPD), nutrição da soja e a integração lavoura – pecuária (ILP). Para conferir a primeira parte CLIQUE AQUI. 

Utilização do Sistema Plantio Direto (SPD)

Apesar de atualmente o SPD dominar o cultivo de grãos no Brasil, a sua taxa de adoção foi lenta nas duas primeiras décadas de utilização. Durante os primeiros 20 anos (1970 a 1990), menos de 1 milhão de hectares (Mha) haviam sido incorporados ao novo sistema produtivo. Deslanchou a partir de 1990, cuja década avançou para 13 Mha e hoje se aproxima dos 35 Mha, com indicações de que crescerá muito mais, dadas as vantagens tanto maiores quanto mais longevas for a utilização do sistema.

O SPD é uma das mudanças tecnológicas que mais impactou positivamente o aumento da produtividade da soja no Brasil. Ele não apenas evitou a perda da camada mais fértil do solo via erosão, como promoveu o acúmulo de matéria orgânica no solo, favorecendo a retenção da água e o aumento da produtividade. Também, permitiu a antecipação do plantio da soja para uma época mais favorável nas áreas mais frias do sul e viabilizou uma segunda safra de verão (milho e algodão, principalmente) nos climas mais tropicais (Cerrado, por exemplo).

A área cultivada com o milho safra e o safrinha (6,6 Mha vs. 9,4 Mha, com produção, respectivamente, de 31 Mt vs. 54 Mt), indicam a importância que o milho safrinha assumiu na produção total do cereal no Brasil. Interessante observar que sua área cresceu simultaneamente com a área cultivada sob o SPD, suscitando a pergunta: foi o SPD que impulsionou a área de milho safrinha ou foi o contrário?! Talvez, ambos, se apoiaram e cresceram juntos.

O SPD se sustenta sobre quatro requisitos básicos: rotação de culturas; continuidade no sistema; mínimo revolvimento do solo; e cobertura permanente do solo. O excesso de confiança no sistema tem levado produtores a descuidarem-se desses princípios, removendo os terraços de contenção, fazendo operações no sentido da declividade do terreno, cometendo intervenções periódicas com grades ou subsoladores e não promovendo a rotação de culturas. A rotação de culturas, além de diversificar a palhada, facilita o controle de plantas daninhas e quebra o ciclo de doenças e pragas, facilitando seu controle. No perfil do solo, a rotação de culturas diversifica os sistemas radiculares, promove a penetração de raízes, recicla nutrientes, melhora a aeração, aumenta o teor de MO e diminui o banco de sementes de plantas daninhas, entre outros benefícios.

Nutrição da soja

A nutrição equilibrada é essencial à obtenção de elevadas produtividades de soja. Os solos brasileiros, via de regra, são pobres em nutrientes, necessitando, consequentemente, de boas doses de adubo e calagem.

Nos primórdios do seu cultivo, a adubação da soja era feita sem os rígidos critérios usados atualmente – que recomenda aplicar doses de fertilizantes segundo indicado pela amostragem bem feita do solo (coleta de várias subamostras do talhão), seguida pela análise de uma amostra composta das várias subamostras por um laboratório credenciado. Os produtores entenderam a importância de tais práticas para a obtenção de máximos rendimentos e, via de regra, estão seguindo tais recomendações.

O fertilizante é caro e o Brasil é muito dependente do produto importado (70%). Mas não adubar convenientemente é mais caro ainda, pois a perda de rendimento representa, em termos financeiros, um volume muito maior. Por outro lado, é possível dispensar o fertilizante nitrogenado, o mais caro por ser exigido em maior quantidade. Já a inoculação das sementes com bactérias fixadoras do nitrogênio (N) atmosférico (Bradyrizobium) dispensa o uso de N mineral e o custo do inoculante é irrisório. O produtor qualificado sabe disso, razão pela qual a grande maioria adota a inoculação anual com produtos líquidos ou turfosos, aplicados manualmente ou utilizando sofisticados equipamentos que dispensam o trabalhoso processo da inoculação manual com equipamentos rudimentares.

Integração lavoura – pecuária (ILP)

É uma tecnologia que ainda precisa de avanços no conhecimento, mas já desperta a atenção dos produtores de vanguarda, dadas as perspectivas de ganhos promissores na produção das pastagens cultivadas após a lavoura e da produção de grãos e fibras cultivados após as pastagens. Em menor escala, também se pode integrar a pecuária com a exploração florestal.

Esta tecnologia interessa não apenas ao produtor mas a toda a sociedade, dado o potencial que ela tem de mitigar os gases de efeito estufa, sequestrando milhões de toneladas de CO2 da atmosfera através da recuperação de vastas áreas de pastagens degradadas. Apesar dos incentivos públicos (crédito abundante, barato e de longo prazo) e dos evidentes benefícios à produção de grãos e fibras nas lavouras e de carne nas pastagens melhoradas, a adoção da ILP ainda está lenta, como também foi lenta a adoção do SPD, que levou 20 anos para deslanchar e consolidar-se. Tudo o que é novo gera dúvidas e desconfianças no produtor, que por sua vez demora a reagir.

A maior dificuldade para o estabelecimento mais rápido da ILP talvez esteja relacionada ao fato de que, normalmente, quem é agricultor não sabe lidar com a pecuária e quem é pecuarista não sabe mexer com a lavoura. A combinação ideal seria a parceria do agricultor com o pecuarista, onde o primeiro cuidaria da lavoura e o segundo cuidaria da pecuária, um beneficiando o outro. A lavoura melhora as propriedades do solo para o estabelecimento das pastagens e estas promovem melhorias na estrutura do solo para o estabelecimento das culturas, além de quebrar o ciclo de várias doenças e pragas que incidem nas culturas.

Na próxima edição da Revista Agrocampo confira a última matéria dessa série que irá abordar o Controle das plantas daninhas, pragas e doenças, as Melhorias no maquinário agrícola e a Gestão do negócio e associativismo.

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