Trigo: colheita da safra recorde já pressiona os preços

Trigo: colheita da safra recorde já pressiona os preços

Argentina resgata a competitividade do agronegócio e volta a concorrer com o BrasilNo Brasil, a tendência é de baixa para os preços do trigo, de forma mais acentuada a partir do mês de outubro.

Em meses anteriores, os valores do trigo subiram com força, especialmente no final do primeiro semestre do ano, impulsionados pela maior demanda das indústrias de ração. Com isso, os estoques internos de trigo se enxugaram. No entanto, a safra brasileira de trigo de 2016 deve ser recorde, estimada pela nossa consultoria em 6,160 milhões de toneladas, um aumento de 11,3% frente ao da temporada anterior, devido ao crescimento de 30% na produtividade, estimada em 2,9 toneladas por hectare. A área destinada ao cereal caiu 14,4% em relação à safra passada, estimada em 2,097 milhões de hectares.

A safra recorde, que deveria ser uma boa notícia para triticultores, consumidores e governo, torna-se vilã, ao se concentrar no Sul do Brasil e coincidir com as colheitas da Argentina e Paraguai, países que estão ampliando suas vendas de trigo ao mercado brasileiro. O Brasil é o quarto maior importador mundial de trigo e tem comprado volumes expressivos nestes últimos anos. As importações de trigo em grão, entre 2000 e 2015, somaram impressionantes 98,6 milhões de toneladas ao custo de US$ 20,9 bilhões, ou seja, R$ 67,7 bilhões. Esse volume representa uma importação anual média de 6,533 milhões de toneladas. No exterior, os preços seguem pressionados pelos estoques globais recordes. No Mercosul, a Argentina volta a ter uma grande safra, com excedentes de exportação estimados em 8 milhões de toneladas, o que se refletirá em dificuldades no escoamento da colheita doméstica e em queda nos preços pagos aos produtores brasileiros.

Os preços do trigo em grão continuam caindo, mas a comercialização está em ritmo lento, devido à demanda enfraquecida. No Paraná, os moinhos sinalizam preços de R$ 680 e R$ 720 a tonelada. Neste começo de safra, a tendência é de preço ao redor de R$ 720 a tonelada, mas à medida que a colheita avançar, os preços devem ceder. No Paraná, a expectativa de produção é de 3,3 milhões de toneladas, com produtividade média de 3.052 quilos por hectare, 25% acima do ano passado. No Rio Grande do Sul, os preços ao produtor devem recuar para entre R$ 640 e R$ 680 a tonelada. Os moinhos estão no aguardo do avanço da entrada de trigo nova safra e de possíveis novas quedas nos preços. Além disso, os moinhos vêm recebendo o cereal importado e as indústrias de ração também estão retraídas.

Em agosto, as importações de trigo somaram 576,5 mil toneladas, volume 76,1% superior ao de agosto/2015. Segundo a Secretaria de Comércio Exterior, 78,9% do trigo importado veio do Mercosul (sendo 320,66 mil toneladas da Argentina, 73,918 mil toneladas do Paraguai e 60,025 mil toneladas do Uruguai), 17,94%, dos Estados Unidos, 3,21%, do Canadá e o restante, do Líbano. Em agosto, o volume de trigo trazido dos Estados Unidos mais que dobrou em comparação com julho, favorecido pelo menor dólar, mesmo com a TEC (Tarifa Externa Comum). Além da colheita, a menor paridade de importação também é fator de pressão sobre os valores internos. À medida que crescem as importações e que evolui a colheita da safra doméstica, a tendência é de baixas mais acentuadas para os preços.

Carlos Cogo – Consultor em Agronegócios

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