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Trigo, eis a questão!

Trigo, eis a questão!

trigo mauricio de bortoliA cada safra que se aproxima o produtor rural vê a situação da cultura do trigo de maneira mais inusitada. Prova disto é que ao transformar o mercado mundial em números, nos surpreendemos com a variabilidade de situações que surgem e superam, desta forma, os diversos estudos realizados pelos maiores conhecedores deste cereal, ao ponto de nos fazer repensar sobre se iremos investir na próxima safra em uma cultura rodeada de tantas incertezas.

Nossa viagem começa pelo Estado do Paraná, aonde se inicia a colheita do trigo em meio a uma super safra mundial com a menor cotação deste cereal dos últimos dez anos na Bolsa de Kansas e Chicago. Um fato a ser observado, é que a produção mundial de trigo cresceu aproximadamente 4% em relação ao ano passado, subindo de um volume de 952 milhões de toneladas para algo em torno de 984 milhões de toneladas, segundo dados do USDA. No Brasil, como um todo, a tendência de aumento de produtividade também deverá resultar numa produção nacional 11% maior, totalizando um volume de mais de 6 milhões de toneladas do cereal. No entanto, estudos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), apontam que o consumo de trigo no Brasil vem diminuindo no decorrer dos últimos anos. Prova disto é que em 2013, o consumo foi de 11,3 milhões de toneladas e já no ano passado este volume caiu para algo em torno de 10,2 milhões de toneladas.

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Dados mostram que o consumo per capita do brasileiro que chegou a 44,5 kg/hab./ano em 2012, no ano de 2015 caiu para 39,5 kg/hab./ano. Não bastasse a elevação da produção e a diminuição no consumo de trigo no Brasil, a oferta do cereal no MERCOSUL esta com larga margem, podendo atingir algo superior a 22 milhões de toneladas, frente a um consumo inferior a 18 milhões de toneladas. Somente a Argentina deverá produzir um excedente de 8 milhões de toneladas de trigo nesta safra. Baseado nisto, se percebe que os argentinos são, atualmente, os vendedores mais eficientes no mercado mundial. O que os torna vendedores tão vorazes são principalmente seus baixos custos de logística. Como exemplo, podemos afirmar que o trigo oriundo de uma fazenda na Argentina com destino ao nordeste do Brasil pode chegar ao destino final a um custo total de R$ 30,00 a tonelada. Em contra senso a este dado podemos observar que o trigo produzido em Cruz Alta – RS custa os mesmos R$ 30,00 a tonelada para chegar até o porto de Rio Grande, no mesmo Estado. Desta forma, fica difícil para o trigo gaúcho competir com o trigo importado dos hermanos. Mas, o nosso Estado em contra partida possui grande vantagem competitiva, já que aqui possuímos três grandes centros de desenvolvimento de tecnologia e genética em trigo, além de um setor industrial moderno e reconhecido pela sua eficiência produtiva.

Portanto, com a grande oferta de trigo no mercado mundial, o principal delineador dos preços nesta safra será a qualidade, já que houve deterioração dos trigos em países como Estados Unidos, França, Alemanha e parte da safra na Rússia para o ano de 2016. Já a expectativa para a safra sul-brasileira, que começa agora e responde por 90% do trigo produzido no país, é boa já que o cenário climático tem se mostrado positivo até o momento. Em nosso Estado, principalmente, os meses de setembro e outubro estão sendo relativamente secos, o que gerou uma sanidade superior nas lavouras – elevando o potencial produtivo e a qualidade das lavouras e aumentando, um pouco, os ânimos para compensar os preços baixos ofertados pelo cereal até o momento.

Maurício De Bortoli

Engenheiro Agrônomo

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