História recontada: o alerta crescente dos tripes na soja

História recontada: o alerta crescente dos tripes na soja

História recontada: o alerta crescente dos tripes na soja

Em cada safra, o campo nos apresenta capítulos que, para muitos, parecem repetidos. Quando falamos em insetos-praga, as histórias se renovam apenas nos detalhes, porque na essência pouco muda. As preocupações seguem as mesmas, as promessas se multiplicam e, ano após ano, parte do potencial produtivo acaba ficando pelo caminho.

Entre os fatores que contribuem para essas perdas, os insetos ocupam papel central. Alguns drenam energia da planta, comprometendo seu desenvolvimento. Outros vão além e atuam como vetores de agentes que, com o tempo, degradam estruturas e reduzem a capacidade produtiva. O resultado é conhecido, impacto direto na produtividade e na rentabilidade.

Coincidência ou apenas mais uma história recontada?

Há alguns anos, aqui na Revista Agrocampo, chamávamos atenção para um inimigo quase invisível, os tripes. Pequenos no tamanho, mas grandes no potencial destrutivo, esses insetos começaram a ganhar relevância nas lavouras de soja. Já naquele momento, estimativas indicavam perdas entre 5% e 10% na cultura.

Hoje, esse cenário se confirma e reforça a necessidade de atenção contínua.

Duas espécies se destacam nesse contexto:

  • Caliothrips brasiliensis: De coloração escura e hábito predominantemente foliar, esse tripes possui aparelho bucal raspador-sugador. Seus danos são facilmente reconhecidos pelo prateamento, clorose e necrose das folhas, comprometendo diretamente a fotossíntese. Presente em culturas como soja, feijão e algodão, encontra condições ideais em ambientes quentes e secos. Apesar da baixa relevância como vetor de vírus, seus danos diretos são significativos.
  • Frankliniella schultzei: Mais versátil, essa espécie apresenta coloração variável e comportamento polífago, com preferência por flores. Provoca deformações, necroses e abortamento floral, impactando diretamente a formação de grãos. Além disso, destaca-se como vetor importante de tospovírus. Sua alta capacidade reprodutiva e a dificuldade de controle tornam indispensáveis o monitoramento constante e o manejo integrado.

Diante desse cenário, algumas estratégias práticas podem fazer a diferença no resultado da lavoura:

  • Com 3 nós na soja

A adoção de ferramentas específicas para o controle de tripes pode representar um incremento médio de até 200 kg por hectare na produtividade.

  • Com 10 nós na soja

O manejo integrado visando o controle de tripes e percevejos pode elevar esse ganho para cerca de 300 kg por hectare.

Mais do que números, esses dados reforçam um ponto essencial: antecipar decisões é determinante para preservar o potencial produtivo.

Outro aspecto que merece atenção é a relação entre pragas e doenças. Ambientes com alta incidência de tripes frequentemente apresentam maior presença de cercospora, uma interação que evidencia como o desequilíbrio inicial pode desencadear problemas ainda maiores ao longo do ciclo.

Na produção, histórias podem até se repetir. Mas os resultados dependem de como cada produtor escolhe conduzir o próximo capítulo.

Maurício Pasini
Engenheiro Agrônomo Doutor em Entomologia
@pasini.mpb

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