A produção de grãos no Brasil tem crescido de forma expressiva nas últimas décadas, consolidando o país como o maior produtor mundial de soja e o terceiro maior produtor de milho. No cenário nacional, o Rio Grande do Sul ocupa a posição de destaque, respondendo por cerca de 15% da produção brasileira de soja e 9,3% da produção de milho.
Apesar desse protagonismo, o RS enfrenta um desafio recorrente: a perda significativa de produtividade devido ao déficit hídrico, especialmente em anos de La Niña. Como mostram as últimas safras, a combinação de temperaturas elevadas e chuvas irregulares tem sido um dos principais fatores limitantes para o desempenho das lavouras gaúchas.
Déficit Hídrico: o inimigo silencioso da produtividade
A falta de água em momentos críticos do ciclo das culturas reduz o número de grãos, a massa de mil grãos e, por fim, na produtividade final. Diante desse cenário, a irrigação surge como ferramenta estratégica para mitigar riscos climáticos e garantir maior estabilidade produtiva.
Potencial Produtivo (PP) x Potencial Produtivo Limitado por Água (PPA)
Para compreender o tamanho das perdas causadas pela falta de água, utilizam- se dois conceitos fundamentais:
- PP: rendimento máximo da cultura em condições ideias, sem limitações hídricas ou bióticas.
- PPA: rendimento máximo considerando as restrições impostas pela disponibilidade hídrica e pela distribuição das chuvas.
A diferença entre PP e PPA revela a lacuna de produtividade por água, indicando o quanto o produtor deixa de colher por falta de água na média dos últimos 15 anos no estado.
Quanto o produtor gaúcho perde sem irrigação?
Soja no RS
Pesquisa conduzida pela Equipe FieldCrops na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) mostra que o potencial produtivo médio da soja para o estado é de 6,3 t.ha-1, sendo que o potencial produtivo limitado por água (PPA) é de 4,4 t.ha-1, gerando uma lacuna de produtividade pela falta de água de 1,9 t.ha-1.

Figura 1. Potencial produtivo e potencial e produtivo limitado por água em lavouras de soja
Fonte: TAGLIAPIETRA, E. L. et al., 2025 – Journal of Agronomy and Crop Science.
Milho no RS
O potencial produtivo para a cultura do milho, semeado como primeira cultura, no final de agosto, é de 15,8 t.ha-1,sendo seu PPA de 12,4 t.ha-1,ressaltando esse que apresenta uma variação bastante grande interanual. A lacuna de produtividade provocada pela seca no milho é 3,4 t.ha-1 (Figura 2).

Figura 2. Potencial produtivo e potencial produtivo limitado por água em lavouras de milho.
Fonte: TAGLIAPIETRA, E. L. et al., 2025 – Journal of Agronomy and Crop Science.
Quando se faz uma análise em conjunto desses dados, fica evidente que mais de 25% do potencial produtivo pode ser perdido devido à falta de água (30% para soja e 21% para o milho), um impacto direto no bolso do produtor. Segundo a Emater/RS (2025), o RS enfrenta, em média, sete anos de seca a cada dez. Essa frequência elevada reforça a necessidade de estratégias que reduzam o risco produtivo e garantam estabilidade ao longo das safras.
Irrigação: a solução para transformar potencial em produtividade real
A adoção da irrigação, especialmente quando combinada com boas práticas de manejo, pode reduzir drasticamente as perdas por déficit hídrico, aumentar a produtividade de soja e milho, elevar rentabilidade, estabilizar a produção ao longo dos anos, permitir uso mais eficiente de insumos e tecnologias e entre outros.
Estudos recentes também destacam a irrigação suplementar, aplicada apenas nos períodos críticos das culturas, como alternativa viável e de alto retorno econômico. Mesmo nessa modalidade, a irrigação pode resultar em incrementos expressivos na produção, frequentemente representados por ganhos de toneladas na colheita.
As lacunas de produtividade observadas nos estudos da Equipe FieldCrops da UFSM, demonstram que o produtor gaúcho tem muito a ganhar com irrigação, seja em estabilidade, seja em rentabilidade.
Quanto vale 1 mm de chuva para soja e milho no RS?
Em média 1 mm de chuva corresponde a aproximadamente 10 m³ de água por hectare. A soja converte essa água em produtividade com eficiência variável, mas estudos mostram que, em períodos críticos, como florescimento e enchimento de grãos, cada 1 mm pode representar entre 8,5 e 9,2 kg.ha-1 mm-1 de grãos (a depender da cultivar), ou seja, um déficit hídrico de 100 mm durante o ciclo pode significar 1 t.ha-1 de lacuna de produtividade. Em anos de estiagem severa, a falta de água no RS ultrapassa 150 mm, o que explica perdas superiores a 2 t.ha-1 observadas em muitas regiões.
Para o milho, em condições críticas, 1 mm de chuva pode representar 20,9 kg de grão ha-1 mm-1, em um déficit hídrico de 100 mm a lavoura pode apresentar perdas superiores a 2 t.ha-1. Não é raro que lavouras gaúchas enfrentem déficits superiores a 200 mm, o que ajuda a explicar lacunas de produtividade de 3 a 4 t.ha-1.
A cada milímetro que deixa de cair no momento certo, o produtor perde dinheiro, não apenas produtividade. Irrigar permite substituir esses milímetros faltantes, garantindo que a planta expresse seu potencial produtivo.
Diante da crescente demanda mundial por alimentos e da intensificação da variabilidade climática, a irrigação se apresenta como uma das principais estratégias para garantir segurança produtiva no Rio Grande do Sul. Transformar o potencial produtivo em produtividade real depende, cada vez mais, da capacidade de manejar a água de forma eficiente e estratégica.

Alencar Junior Zanon
Engenheiro Agrônomo, Doutor em Agronomia (UFSM/Nebraska), professor de Agricultura na UFSM e coordenador da Equipe FieldCrops.

Maísa Jungbeck
Engenheira Agrônoma, Doutoranda em Engenharia Agrícola e pesquisadora da Equipe FieldCrops.
Bibliografia utilizada
PILECCO, Isabela Bulegon et al. Ecofisiologia do milho: visando altas produtividades. 2. ed. Santa Maria: FieldCrops, 2024. 400 p. ISBN 9786589469988.
SOARES, M. F. Irrigação: garantia de boas colheitas de soja no Rio Grande do Sul. Revista Extensão Rural, 2025.
TAGLIAPIETRA, E. L. et al. Assessing yield gaps and risks in cropping systems of Southern Brazil. Journal of Agronomy and Crop Science, v. 211, e70125, 2025. DOI: https://doi.org/10.1111/jac.70125.

















